Nunca saí da ilha, nunca vi um trem, nunca estive em um estádio.
Santa Helena
Oceano Atlântico
22-09-2025
Quando estamos no meio do mar é como se pausássemos a vida real, não existem os problemas e as pressões da vida normal, existem outros, mas não aqueles.
Sento na popa: música, mar e horizonte. Aproveito a paisagem e o casal de albatrozes pequenos e pretos que voa ao nosso redor.
Depois do Índico, o oceano Atlântico parece de veludo.
Ontem cruzamos o meridiano 0 de Greenwich de leste para oeste. É considerado um novo começo. Às vezes é celebrado como a passagem do equador.
Mar calmo, vento frio, vamos devagar mas vamos.
Na nossa dieta a bordo, acabou a época da fartura das cores das frutas e chegou a temida era das maçãs.
Uma maçã e meia por dia pelos próximos 18 dias.
Depois de contar e dividir, escolhi organizar nossas provisões em saquinhos de tecido com o nome, e cada um de nós se tornou responsável pelas suas maçãs.
01-10-2025
Chegamos a Santa Helena!
Estou em pé desde sempre, ou pelo menos é assim que me parece. Meu turno começou às 2 da manhã; chegamos ao meio-dia do nosso fuso horário, mas às 10 do horário local.
Não sei com que força limpamos e organizamos o barco, almoçamos e depois pegamos o barquinho local que nos leva do veleiro até a terra. Parece o barco do Popeye e, durante toda a nossa estadia, será nosso único meio de transporte. Em Santa Helena, não existem baías protegidas. A costa é íngreme, rochosa e isolada, e foi exatamente essa característica que a tornou o lugar ideal para o exílio de Napoleão Bonaparte.
Assim que pisamos em terra fomos direto para a alfândega, um prédio novo de frente para o porto; ao entrar no escritório fomos recebidos por dois sorrisos e pelo cheiro de curry do almoço no ar.
Terminada a burocracia decidimos subir a montanha que nos separa da cidade de Jamestown. Meia hora caminhando sob o sol, felizes por poder nos movimentar, por estar aqui, pela vista das montanhas vulcânicas e do vale verde com o oceano às costas.
A recompensa da subida se apresenta com uma estrada que corre como uma fenda entre as montanhas enquanto revela a cidade. Me lembra a Polinésia Francesa e a ilha de Mangareva, com as árvores frutíferas e as hortas que se estendem retas até o mar.
Seguimos uma trilha que deveria levar a uma cachoeira em forma de coração, mas somos surpreendidos por um barulho fortíssimo e pela primeira vez na vida escuto o som poderoso de um enxame de abelhas em voo. Não as vemos, mas o som é suficiente para nos fazer mudar de direção.
Passamos pela cidade recolhendo sorrisos curiosos e gentis. Parece muito mais bonita do que eu lembrava, às vezes me lembra a Itália, com os patos na grama e uma mistura de arquitetura popular europeia e inglesa. As placas de madeira das lojas contam histórias de outros tempos.
Conhecemos o clube de vela, um pequeno bar no porto que cheira a fish and chips e nos coloca imediatamente no limbo entre a vontade de ficar, o corpo implorando por uma noite de sono e o último horário disponível do nosso táxi aquático.
Depois do abenço de um banho quente aproveitamos um pôr do sol que parece não querer terminar enquanto a escada de Santa Helena se ilumina na noite. Uma faixa de luz com 699 degraus que liga o mar ao céu enquanto reacende tantas lembranças. Ao vê-la novamente percebo o quanto fomos loucos por aceitar aquele desafio em 2016, quando nossa passagem por Santa Helena coincidiu com a competição da maratona mais remota do mundo. Para esse evento chegavam à ilha pessoas e atletas de várias nacionalidades a bordo do RMS, o Royal Mail Ship, que naquela época ainda era a única ligação da ilha com o continente.
O navio partia da Cidade do Cabo e, em cerca de 5 dias, fazia aquela travessia que para muitos já era parte da aventura. Não era apenas um meio de transporte, mas uma verdadeira festa de chegadas, encontros e retornos.
Durante o evento da maratona também havia o desafio de quem subia os degraus da Jacob’s Ladder mais rápido. ( Sim, o equipamento da escada infinita das academias pega o nome da escada de Santa Helena).
Para a glória do documentário “Expedição Oriente” eu e Wilhelm fomos inscritos na competição e, com as pernas ainda moles depois dos 10 dias de navegação da Cidade do Cabo até Santa Helena, nos lançamos nessa aventura louca. Com mais ousadia do que preparo físico ficamos em segundo lugar feminino e terceiro lugar masculino, levando para casa duas medalhas!
Pela primeira vez perdi a voz por esforço físico, senti o esôfago em chamas. Por dois dias consegui me comunicar só através de sorrisos enquanto Wilhelm chegou tão pálido que assustou os seus pais! Mas, para dois competitivos como nós, o que importava eram as medalhas e ter garantido esse pedaço de história!
Meus olhos se fecham entre as lembranças. Estou exausta, quase um pouco embriagada de sono, com as pernas duras e os olhos pesados.


05-10-2025
E, em um segundo, já é o último dia em Santa Helena antes de mais 12 dias de mar, antes que nossa volta ao mundo termine e casa volte a ser o Brasil.
Aconteceram tantas coisas nesses dias que não tive tempo ou força para escrever.
Tenho a sensação de que a ilha está mais simpática do que da outra vez, parece que todos têm vontade de conversar, de te cumprimentar, de conhecer a sua história e de contar a deles.
Eu e Wilhelm conseguimos conhecer a cachoeira que no outro dia não tínhamos podido ver por causa do enxame de abelhas. Enquanto descíamos ouvimos um barulho que parecia um animal selvagem, mas revelou-se um senhor magérrimo sentado nos degraus diante do verde do vale, vestido de jardineiro, com o rosto que me lembrava a casca de uma árvore, os lábios como uma fenda e os olhos sonhadores de quem vê o mundo através do véu do tempo e da catarata.
Ele se levanta, nos cumprimenta e começa a contar. Chama-se Raymond Green, nasceu e cresceu aqui, tem um sotaque difícil de entender, parece um inglês do Caribe que se torna ainda mais desafiador pela falta dos dentes.
Ele nos conta que nunca saiu da ilha e, para dizer isso, escolhe estas palavras:
“I never left the island, never saw a train, never been to a stadium.”
(“Nunca saí da ilha, nunca vi um trem, nunca estive em um estádio.”)
Essa frase move algo dentro de mim.
Um homem nascido e criado em uma das ilhas mais remotas do mundo, com uma população máxima de 4.000 pessoas que, até a chegada do aeroporto em 2018, tinha o mar como única ligação com o continente. Penso na escolha das suas palavras, que ainda hoje ficam beliscando a minha mente.
Ele nos conta como a ilha mudou, que a cachoeira no passado era abundante e que agora está seca porque a água foi levada para as casas. Que nos dias quentes as abelhas enlouquecem com o perfume das flores e se tornam muito perigosas, que é preciso cobrir o rosto e principalmente os olhos porque é isso que as atrai.
Conta que quando era jovem descia a escada de Santa Helena escorregando no corrimão com as mangas da jaqueta jeans com os pés levantados e o sorriso no rosto para encontrar os amigos e depois subia de volta em 10 minutos, mas que era melhor não fazer isso à noite porque, se algo acontecesse, ninguém saberia.
Conta que as crianças voltavam da escola descendo a escada. Uma manada de meninos escorregando no corrimão, mas que hoje isso não se vê mais porque todos só querem assistir Discovery Channel.
Nos despedimos acenando com a mão enquanto a mente fica suspensa.
Temos a sensação de ter entrado em uma máquina do tempo e de ter acabado de viver Santa Helena como era antigamente. Agradecemos e poucos minutos depois nos arrependemos de não ter registrado esse encontro e o rosto de Raymond Green em uma foto.
06-10-2025
Já é hora de voltar à alfândega e deixar a ilha e seus habitantes que sorrindo se despedem assim: “Voltem quando quiserem. Nós ficamos aqui, não nos movemos e mudamos muito lentamente.”
Obrigada, Santa Helena.
Vamos, Brasil!!!
Erika Cembe Ternex






Como um pedaço inteiro do mundo pode caber numa ilha? É bonito e um pouco inquietante ao mesmo tempo.
Jacob's Ladder é "literalmente" de tirar o fôlego :-)